Por Antonio Florencio de Queiroz Junior é presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Rio de Janeiro (Fecomércio RJ)
O último ano consolidou o Rio de Janeiro como uma potência turística em franca recuperação. A cidade mostrou capacidade de atrair visitantes em escala, manter relevância internacional e sustentar uma agenda de eventos que vai muito além dos grandes picos tradicionais. Os números que comprovam isso são robustos: no primeiro semestre de 2025, 6,8 milhões de pessoas visitaram a capital e foram responsáveis por movimentar R$ 14,5 bilhões na economia e gerando uma alta de 26% na arrecadação de ISS. O fluxo internacional, um dos motores desse crescimento, ultrapassou 2 milhões de estrangeiros, um recorde. Dando sequência à retomada do Aeroporto do Galeão, este verão promete ser histórico, com potencial para atrair 5,7 milhões de turistas.
Contudo, um grande desafio continua no horizonte: levar essa pujança turística ao comércio varejista formal. Enquanto o turismo decola, o comércio no Rio enfrenta ventos contrários. Dados de Pesquisa Mensal do Comércio, do IBGE, mostram um recuo de 0,7% no volume de vendas no estado de outubro para novembro passado, em contraste com uma alta de 1% no Brasil como um todo. O Rio, no período, foi um dos únicos quatro estados no país que registraram queda nesse comparativo. Em termos de receita, houve uma leve alta (0,2%), mas também abaixo da média nacional (1%).
Na prática, o que fica claro é que o comércio no país todo vem enfrentando desafios e no Rio não é diferente, muito embora às vezes melhor, às vezes aquém dos índices nacionais. Mas, com essa pujança do turismo, 2026 é o ano de materializar essas conquistas em índices positivos para o comércio.
Estudo do IFec RJ aponta que essa retração no comércio, verificada já desde o primeiro semestre, deve-se a três freios principais: a economia informal, a manutenção do home office e o aumento da criminalidade, com roubo de cargas subindo 27,6%. A informalidade movimenta espantosos R$ 163 bilhões no estado, criando concorrência desleal e drenando recursos do setor formal.
A lição central para 2026, portanto, é clara: é urgente alinhar o potencial do comércio à força do turismo para um crescimento sustentável. A solução passa por expandir a força do varejo formal, combatendo a informalidade com firmeza, qualificando o atendimento e melhorando a experiência de compra para todos os turistas, o que inclui iniciativas simples, como melhor sinalização urbana para os turistas (inclusive nacionais).
Há vários caminhos para alavancar o comércio em 2026. Um deles é a implementação do programa Tax Free. Regulamentado em setembro de 2025, o sistema permitirá a devolução do ICMS a turistas estrangeiros em compras acima de R$ 109,26. A iniciativa, que deve começar a operar em 2026 após licitação e credenciamento das lojas, é um divisor de águas. Estudos do setor estimam que a medida pode dobrar os gastos dos turistas internacionais, adicionando cerca de R$ 2 bilhões à economia fluminense. E o melhor: é uma medida de implementação simples e eficaz, que não demanda graças recursos ou obras.
O ano que se inicia representa transição e oportunidade. O controle da inflação no país também é um sinal que alimenta otimismo. Outro elemento nacional que traz alguma esperança é a Selic, que, espera-se, em algum momento sairá de patamares tão altos e nocivos.
Mas o Rio, claro, não pode depender de fatores externos, assim como a cidade não pode depender apenas dos saltos isolados de grandes eventos. O setor, portanto, deve consolidar iniciativas como o “Rio o Ano Inteiro” e, principalmente, usar ferramentas como o Tax Free para converter seu sucesso turístico em desenvolvimento comercial integrado e distributivo. O caminho é transformar o visitante, que já desfruta das nossas belezas naturais e nossa cultura, em um consumidor assíduo dos produtos e serviços formais da cidade, gerando emprego, renda e arrecadação de forma mais equilibrada e perene. A Fecomércio RJ seguirá ativa nesse propósito de ajudar a cidade e o estado.